por Letícia González
Na semana passada, por dois dias, o Facebook suspendeu a página pessoal da médica holandesa Rebecca Gomperts, de 45 anos. O motivo foi a imagem que Rebecca colocou em seu perfil: em vez de uma foto de rosto, como a maioria das pessoas faz, ela publicou um texto com um sucinto passo a passo. Nele, explicava como realizar um aborto em casa antes da nona semana de gestação. Por 48 horas, ela não pode acessar o seu perfil e recebeu uma explicação do site dizendo que o conteúdo violava suas diretrizes.
Na segunda-feira (2), no entanto, o Facebook voltou amtrás e enviou um pedido de desculpas a Rebecca, que reproduziu a mensagem e comemorou a vitória: “Acredito que foi por todos os protestos e perguntas de jornalistas”, disse em sua página.
“Acho que a lição mais importante para mim é que redes sociais se tornaram tão importantes que temos de assegurar que respeitem o direito à liberdade de informação”, disse Rebecca em bate-papo exclusivo com Marie Claire.
O episódio inflamou a discussão sobre a legalização do aborto na internet. De um lado, críticos dizem que a ONG incita mulheres a violar a lei – muitos também acreditam que o aborto não deve ser feito em nenhuma circunstância. Do outro, ativistas e personalidades como a atriz Maggie Gyllenhaal defendem a liberdade das mulheres para manter ou interromper uma gravidez indesejada – e não fazê-lo apenas em caso de risco de vida para a mãe ou de violência sexual, como garante a lei brasileira, por exemplo.
Por aqui, o aborto é uma realidade clandestina que aparece cada vez mais nos números oficiais. Segundo o Ministério da Saúde, uma em cada sete brasileiras já fez aborto. A operação, feita em clínicas sem controle, mata uma mulher a cada dois dias. As complicações e os procedimentos inacabados levam tantas mulheres aos hospitais que a curetagem pós-aborto é a cirurgia número um do SUS, o sistema público de saúde. Ou seja, as brasileiras, mesmo com a proibição, interrompem gestações indesejadas em clínicas, umas bem, outras mal equipadas, ou em casa mesmo. E o Estado paga a conta.
Segundo Rebecca, o misoprostol, medicamento indicado em seu perfil de Facebook, é uma raridade no Brasil. Além disso, muitos produtos que circulam no mercado negro local são falsos. “As mulheres têm de tentar consegui-lo no Uruguai, no Peru ou na Bolívia, caso morem próximo desses países. A Women on Web (uma extensão da sua ONG), é uma fonte confiável para drogas abortivas (vendidas e entregues via correio)”.
Informações a partir da Revista Marie Clarie em 05/01/2012
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