Dia 23 de outubro de 2011. Dia de fazer o graffiti interativo feminista. Chegamos na Rua da Várzea um pouco depois das 10h, mas a galera já estava por lá trabalhando. O pessoal do GRIF Maçãs Podres (Ana Clara Marques, Fernanda Sunega e Patrick Monteiro) já tinha pintado o poema e estava colando na parede o stêncil da palavra MATERNIDADE.
No muro, antes de nós alguém graffitou um protesto: “Vendo voto à vista”. Depois de muita discussão, as Maçãs Podres decidiram não apagar o graffiti, que foi incorporado ao mural. Essa intervenção compôs muito bem com o nosso tema, afinal os direitos reprodutivos das mulheres estão sempre sendo rifados ou vendidos no “mercado parlamentar”.
Elisa Gargiulo já estava a postos com sua câmara, filmando tudo.
Denise Bertolini, Thamara Lage, Thamires Cabral, Edu Meinberg e Douglas também já tinham aparecido para dar uma força. Marina Vargas chegou logo em seguida. Ela, a Denise, a Thamara e a Thamires ficaram o dia inteirinho com a gente e deram uma força imprescindível!
Enquanto uma parte do pessoal trabalhava no mural, outra parte entregava folheto e conversava com as pessoas que passavam pelo local.

Perto do meio-dia, chegaram Cristiane Gonçalves, Luiza e Janaína Leslão.
Luiza inaugurou a “oficina” de graffiti. Patrick ensinou-a como pilotar uma lata de spray e ela mandou bem no stêncil de Católicas.
Marcinho, morador do local, trouxe água gelada e uma lona de presente e contou histórias de uma violência sofrida. Ao meio fio, junto ao caminhão do seu Heleno, que vendia bebidas e salgadinhos, alguns moradores da região observavam e davam palpites, como seu João, carreteiro, seu Marins e outros.
Um senhor carregando um carrinho de feira com papel para reciclar e sua filha passam pelo local, ela vê a Fernanda recortando as imagens das pessoas e pára na tenda pra desenhar junto.
Sol forte, todo mundo cansando de torrar, mas firme na lida. Hora do almoço, revezamento pra comer. Chega um casal muito simpático, Denise e Alexandre. Ela, enfermeira, conhece bem a realidade das mulheres que abortam e o sofrimento que passam. Soube do evento pelo Facebook , como a Marina, e foi lá para apoiar. Gravou depoimento, graffitou e trocou idéia com todo mundo. Alexandre também graffitou.

Uma moradora de rua vem caminhando devagar e admira o trabalho. Está comendo um pãozinho que o seu Heleno deu para ela. Ana Clara conversa com ela e ensina a pintar. Ela pinta um pouco também, parece encantada com o que vê. Emoção.
Um senhor chega, recebe o folheto e vai embora lendo. Pára e volta para conversar, diz que aborto é pecado. Conversamos com ele sobre as mulheres que morrem, sobre a injustiça de pagarem sozinhas com seu corpo, sua vida, sua saúde. Ele se sensibiliza, concorda, acrescenta argumentos do nosso lado. Sai transformado, apoiando.
Um rapaz passa e vê um folheto no chão. Agacha para apanhá-lo. Olha em volta e vê outro, pega-o e entrega ao colega que caminhava com ele. Concordando com o texto, saem conversando. Outra turma passa e pergunta do que se trata. “Estamos fazendo campanha pela legalização do aborto” , dizemos. “Sou totalmente a favor”, diz um rapaz. E continua: “O que eu posso dizer¿ O corpo não é meu, eu não tenho de dizer nada. A mulher tem de decidir, só ela”. É isso aí, cara!.
Chega um grupo “multinacional”. Vieram também pela divulgação no Facebook. Ele, assessor parlamentar; ela, portuguesa, veio passar um ano no Brasil trabalhando como voluntária na CONAM. Ela graffita, grava depoimento. Em seguida, chegam outras pessoas que estavam com eles: uma italiana, também voluntária, e um rapaz mineiro. Ficam mais um pouco, conversam e vão embora.
Chega também o Marcos, gente boa, soube do evento pelo Transparência Hacker, que divulgou também. Marcos nos deu o maior apoio. Participou da graffitagem e ficou bastante com a gente. Ele vai fazer uma HQ sobre o aborto utilizando o mural. Bacana demais sua idéia!
Um camelô que mora na região diz que as mulheres vão pagar pelo aborto, Deus vai puni-las. Argumentamos que Deus não vai puni-las, porque é bom e justo. Ele não faria isso com as mulheres, porque se elas abortaram, foi por necessidade. E não fizeram a gestação sozinhas. Ele concorda e diz que Deus vai punir também os homens. Discordamos de novo. Deus é bom, não vai punir quem não merece. Ele se conforma, não muito convencido, mas desiste de falar de punição. Senta no banco do seu Heleno e assiste, impressionado com a arte surgindo de onde antes só se via feiúra cinza.

O muro está ficando lindo, já dá para ver que vai ser algo incrível. Chega um grupo de jovens fãs do Dominatrix, banda da qual a Elisa Gargiulo é vocalista.
São muito jovens e participam muito ativamente, todas, fazendo sua parte no graffiti, algumas gravam depoimento também.


Todas essas participações na graffitagem são feitas sempre com alguém das Maçãs Podres ensinando, isso é muito legal – luxo fazer oficina com quem mais entende do riscado.
Seu João, que está no “bar” do seu Heleno, conversa com a gente e conta que sua mãe queria ter feito aborto e não pôde, teve gêmeos. “Porque não tiveram amor, hoje não gostam da minha mãe e nem de nós; nossa família também não gosta deles. Por isso, eu sou a favor do aborto”. Ele concorda em gravar seu depoimento. Arrepiante!
A confecção do mural chega ao fim. Ficou lindo, maravilhoso, forte, imperativo. Queremos tirar fotos do mural inteiro, mas o caminhão do seu Heleno está na frente, impedindo. Vamos conversar com ele, que se recusa a tirar o caminhão alegando muito trabalho para desmontar e montar tudo e diz que vai ter prejuízo. Argumentamos com calma, pedindo sua compreensão. Momentos de tensão. Fica um mal estar e quase desistimos. Voltamos a conversar, insistindo paciente e educadamente. Ele cede. Tira o caminhão e tiramos fotos do mural inteiro. E tiramos fotos nossa à frente do mural. Neste momento, todo mundo que freqüenta o “bar móvel” do seu Heleno quer tirar fotos também – seu Marins, seu João e outros – e pessoas que passavam na rua.
Alguns minutos depois, está tudo pronto. Seu Heleno volta com o caminhão e é recebido aos gritos: “Seu Heleno, seu Heleno, seu Heleno!” Agradecimento especial a ele é escrito no muro. Ele se comove, fica mais doce do que jamais poderíamos suspeitar de que fosse capaz. Não aceita uma compensação em dinheiro pelo prejuízo, nos oferece uma coca-cola (não aceita o pagamento). Tira fotos, feliz, com a gente e com seus parceiros de Barra Funda tendo o graffiti como fundo. “Eu moro aqui nesse caminhão e vou cuidar desse graffiti. Pode voltar pra ver daqui um mês, dois, três: vai estar assim, direitinho. Ninguém vai mexer nele, não!” Ele está feliz. E todxs nós também!
Clique aqui para ver o álbum completo com as fotos do evento.























Fico muito feliz por ter participado do evento (tô fazendo o “E” de escolha nas fotos!). Parabéns pela arte e obrigada por permitir a colaboração!
foi uma grande emoção conhecer todos que organizaram e participaram da grafitagem de ontem.
por incrível que pareça, em um mundo tão cruel, consegui encontrar pessoas que respiram e fazem feminismo e arte.
só tenho a agradecer pela experiência!
abraços!
Demais o relato! Vontade de viver tudo isso de novo! Foi incrível e emocionante!