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A arte para garantir os direitos humanos das mulheres
Repúdio ao “Rodeio de Gordas”
Categories: Feminismo

“Rodeio das Gordas”, parece absurdo, mas não é!

Isso aconteceu no InterUnesp, os jogos universitários da UNESP_ Universidade Paulista Julio de Mesquita Filho.

Envolveu em torno de 50 rapazes, que agrediram as moças durante o evento.

O tal “rodeio” consistia em um rapaz chegar jogando charme em uma universitária gordinha e depois agarrá-la como se fosse um peão na arena, de forma que quem permanecesse em cima dela por mais tempo era o vencedor.

Enquanto a “presa” se debatia, os outros gritavam: “_ Pula, gorda bandida”
(talvez em referência ao touro Bandido, que ficou conhecido em uma novela global que falava de rodeios). Há ainda o indicativo que em uma próxima edição do InterUnesp o tempo será “cronometrado”.

Vejam a reportagem na íntegra aqui:
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/820901-alunos-universitarios-agridem-colegas-da-unesp-em-rodeio-de-gordas.shtml

Para se manifestar, escreva para o reitor, o vice e toda assessoria. Emails: reitor@unesp.brhvoorwald@reitoria.unesp.br, durigan@reitoria.unesp.br, fatima@reitoria.unesp.br, elica@reitoria.unesp.br, lauroh@reitoria.unesp.br, pimentel@rc.unesp.br, briganti@reitoria.unesp.br, sajorge@reitoria.unesp.br, beth@reitoria.unesp.br, visone@reitoria.unesp.br, jjgebara@reitoria.unesp.br, gennari@foa.unesp.br, ierocha@assis.unesp.br

Imagem que ilusta esse post: Botero, Donna Allo Specchio 2003

Abaixo, a carta de repúdio enviada pela Coordenadora de nosso Projeto, ao vice-diretor da Unesp-Assis.

Prezado Prof. Ivan Esperança,

por uma matéria publicada no jornal Folha de São Paulo de hoje (27/10), acabo de tomar conhecimento – com horror! – do que ocorreu no evento esportivo que reúne todas unidades da UNESP, uma das mais conceituadas instituições de ensino superior do país. Vi na reportagem que alunos se divertiram às custas do excesso de peso das alunas, que certamente não se enquadram no padrão de beleza a que as mulheres se sentem compelidas a seguir devido à pressão social e reforçada fortemente pela mídia com o intuito de vender produtos de beleza e cirurgias estéticas, submentendo-se muitas vezes a dietas procedimentos horrorosos apenas para se sentirem atraentes para os homens.

Não sei se o senhor atentou para o fato de que este tipo de violência é cometida somente contra as mulheres – é o que chamamos de violência de gênero. Nenhum homem se sente tão desvalorizado – e muito menos tem sua auto-estima tão rebaixada – q uanto as mulheres por causa de seu peso, do formato de partes do seu corpo, cor do cabelo, roupas que veste etc. Então, professor, a pressão social por esta “ditadura da beleza”  já se constitui por si uma violência de gênero, na medida em que submete, agride, violenta, espolia, maltrata e corrói a dignidade apenas das mulheres.

A promoção deste  estúpido e abominável “Rodeio das gordas”, então, é simples e absolutamente inaceitável.  Porque não apenas se utiliza – e leva a extremos insuportáveis – a violência de gênero, mas sobretudo porque o faz com requintes de crueldade, sem simpatia, sem empatia, sem nenhum cuidado com as mulheres que sofreram tamanha agressão. Tal “brincadeira” (termo totalmente inapropriado para designar o que aconteceu) reforça a idéia de que as mulheres são apenas objeto de consumo para os homens, que se sentem no direito de não apenas descartá-las quando não são interessantes esteticamente para eles, mas podem ser inclusive alvo de escárnio público, violência, crueldade, humilhação.

Episódios deste tipo – como também o acontecido  na UNIBAN – preocupam-me principalmente por serem um sinal de alerta: que tipo de seres humanos estamos formando, se estas pessoas que pertencem a uma elite cultural e intelectual no país violam – por prazer! – os direitos humanos de suas colegas, inflingindo a elas um tipo de tortura que vai deixar marcas para sempre? Que tipo de gente estamos formando, que se dá  o direito de “montar” sobre suas colegas para ridicularizá-las em público, coisa que parcela da sociedade não aceita mas que se faça  nem com animais de carga ou de produção, por se configurar como crueldade contra os animais? Que tipo de sociedade, afinal, queremos construir, prof. Esperança? Uma sociedade que reforça os estigmas, os estereótipos, a discriminação, a violência, ou uma sociedade que pode respeitar e conviver com a diversidade, com as diferenç as? Devo dizer que estou em pânico, professor, e sem querer fazer trocadilho, estou sem nenhuma esperança. Não quero que as gerações futuras vivam num Brasil nazista, não quero o totalitarismo selvagem que tortura, fere e mata por diversão! Estou em pânico.

Escrevo-lhe agora movida pelo horror e pela indignação. Fiz um leve exercício de empatia – coloquei-me no lugar dessas meninas por alguns instantes e, mesmo em imaginação, senti-me completamente estraçalhada, violentada, destruída. E então, professor, escrevo-lhe também porque me preocupou muito sua declaração,  publicada na mesma matériado jornal: “Vamos ouvir os envolvidos e estudar as medidas disciplinares, mas não queremos estabelecer um processo inquisitório”. Porque isso me cheirou a leniência, sabe? Me cheirou à uma compaixão meio deslocada pelos agressores. Porque não estamos falando em queimar na fogueira moral os que pensam diferentemente de nós, como ocorria na Inquisi ção. Nem pensamos que a UNESP deva queimar as bruxas, até porque a inquisição foi muito mais violenta com as mulheres do que com os homens.

Não, professor Esperança, não queremos inquisição, porque aceitamos e respeitamos a diversidade. O que nós queremos – e exigimos – é uma punição exemplar para todos os responsáveis pela tremenda violência cometida contra essas meninas, que agora devem estar encolhidas em suas casas, sofrendo porque foram submetidas à mais terrível das punições somente por não serem as gostosas disponíveis para serem desfrutadas por machos selvagens!

Professor Esperança, o senhor tem à sua frente uma oportunidade rara de fazer justiça, de não deixar que a impunidade continue movendo parcelas da elite de nosso país. O senhor tem uma oportunidade única de dar o exemplo, de mostrar que nem o senhor, nem a UNESP, nem a sociedade seremos coniventes com a violência bárbara e sem sentido cometida contra essas menin as. O senhor tem a chance de contribuir para que a violência contras as mulheres não seja reforçada em todo o país, mais uma vez, pela repercussão que este caso terá.

Professor, contamos com sua integridade ética e com o seu senso de justiça. Estaremos todos e todas olhando para a UNESP nos próximos dias, com esperança de que o senhor nos ajude a proteger milhares de meninas e mulheres que sofrem – e morrem – pela enorme e impune violência de gênero em nosso país.

Atenciosamente,

Valéria Melki Busin

16 Comments to “Repúdio ao “Rodeio de Gordas””

  1. Ana says:

    Só pra lembrar: quem fez a denúncia foram os próprios alunos da Unesp/Assis, revoltados com o comportamento absurdo de alguns de seus colegas. O grupo dos “peões” é pequeno e nem de longe expressa a visão da totalidade dos nossos alunos. Orgulho-me de ser a professora de alguns dos que fizeram a denúncia, procuraram advogados e a imprensa, para não deixar cair no esquecimento esse ato de barbárie. É indecente que fatos com esse ocorram na universidade, mas confesso-me aliviada ao ver que a imensa maioria dos nossos estudantes está mobilizada para lutar contra atitudes de desrespeito como as ocorridas durante o último Interunesp.

  2. COWBOYS FOREVER says:

    EU NÃO SÓ SOU A FAVOR DO RODEIO DE GORDAS, ACHAMOS ALGO PRA ESSES SERES DO OUTRO MUNDO, COMO DEVERIA TER TAMBÉM PRA PRETAS FEDIDAS E MULHERES FEIAS EM GERAL!!!! AI SIM!!! HAHAHAHAHA… CAMBADA DE FILHA DA PUTA!!! PAU NO CÚ DAS GORDAS, NOS DOIS SENTIDOS!!! KKKKKKKK

    • Ana says:

      Cawboys Forever,
      O sr. deve ter alguma dificuldade que o faça sofrer muito a ponto de perder seu tempo agredindo as pessoas para sentir-se bem. Mas esse sentimento de satisfação acaba rapidinho, não é?
      Sugiro que procure tratamento adequado para os seus problemas, como psicoterapia, por exemplo. Tenho certeza de que, uma vez que conseguir lidar com as suas questões, se sentirá mais seguro, mais bonito, potente, etc, e que o sentimento de satisfação será muito mais duradouro. Verá que a vontade de humilhar as outras pessoas diminuirá, podendo até desaparecer.

    • beth pedrozo says:

      Cara você é doente.
      Precisa de tratamento.
      Não se esqueça que tudo o que vai, volta.
      Nada impede que você tenha uma filha com essas características que você cita.
      Ou quem sabe, você mesmo ´possa ter um distúrbio que o faça engordar, ou uma paralisia que te deixe deformado.
      Não provoque a vida garoto.
      Ela costuma ser implacável com o troco

  3. marcia says:

    sou super contra violencia, mas quando vejo pessoas como esse cowboy ai de cima, revejo meus conceitos.

  4. Raquel says:

    apesar do artigo e da carta dirigida ao prof. Esperança, eu ainda tenho algumas dúvidas!
    Tenho acompanhado toda a manifestação, e me parece que os manifestantes querem ver cabeças rolando! A “brincadeira” foi violenta, mas a manifestação contra os peões também está sendo violenta! E violência pela violência, pode-se dizer que alguém está certo ou alguém está errado? violência É violência! Usar armas violentas para acabar com a violência é apenas uma forma ingênua de fortalecê-la!

    Sou a favor da conscientização, e de medidas que tenham resultados a longo prazo! Visto que empatia e respeito não é exigido como matéria para passar no vestibular, e não se aprende na faculdade (espera-se que um ser humano já NASÇA respeitando o próximo, espera-se que ele já chegue na faculdade sabendo o que é isso, não espera-se que a faculdade ensine a viver em sociedade!), estou curiosa para saber quais atitudes serão tomadas para que isso NÃO VOLTE A ACONTECER com outras caras em outros momentos!

    • beth pedrozo says:

      Conscientização´é coisa que resolve prá crianças e adolescentes em formação.
      Prá um bando de homens barbados e covardes como esses, o que deve ser aplicado é um tipo de punição exemplar que coiba totalmente esse tipo deplorável de atitude.
      Será que algué com juízo teria coragem de se entregar a qualquer tipo de profissional que tenha essa mentalidade abjeta.
      Medidas legais nada têm a ver com vilolência.

  5. marcos says:

    vou denunciar os comentários do usuário COWBOYS FOREVER ao safernet, que deverá tomar as providências cabíveis em caso de racismo e preconceitos diversos.

  6. Tatiana says:

    Corrigindo:
    Cara Raquel, é claro que violência para combater violência não faz sentido, mas o que a carta de repúdio de Valéria Busin ao professor Esperança pede é justiça. Esses senhores, assim como o tal rapaz do Cowboys Forever, que não tem coragem de se expor, precisam ser punidos pela lei, diante do crime que cometeram. Não se espera, por certo, que se faça vingança, que se dê a eles o mesmo que impuseram às meninas (embora seja compreensível que algumas pessoas sintam impulso de vingança, ao se depararem com a impressão de que nada parará os agressores). Não se deve pregar a devolução na mesma moeda, pois já não vivemos mais nos tempos da Lei de Talião. Mas é imprescindível que os autores da violência sejam punidos, sim, na proporção do mal que causaram, e dentro da lei.
    É inacreditável que ainda aconteçam episódios como esse, nos tempos em que vivemos, mas ainda bem que há aqueles dispostos a se manifestar pela justiça e contra a violência e a impunidade.
    De cara limpa e sem pseudônimos. Ao contrário dos que praticam a violência, a julgar pelos rapazes que vieram a este espaço continuar a agressão.

  7. Bandidos, mas diplomados?!

    Todos os dias vemos em nossa sociedade a banalização de vida e uma crescente onda de selvageria camuflada sob o falso moralismo. Em verdade sádicos nojentos eles querem só humilhar…

    Tão brutal e selvagem se unem para discriminar, hostilizar e ofender ao ponto de fazer uma inversão tão discarada e são capazes de legitimar seus feitos ao ponto de confundir para que não se saiba distinguir quem de fato é vítima ou agressores.

    Lembre-se do caso Uniban punição a vítima e e aos agressores,nada!! O que seprecisa de fato é parar de pactuar com a desordem e a barbárie. Universiades do Interior são campeãs de trotoes universitários e todos os horrores possíveis para todos os (des)gostos e gêneros.

    Se tomamos conhecimento desse fato,uma nova barbárie preconceituosa e discriminatória, igualmente praticada por essa suposta ‘elite’ de nossa juventude, ‘massa universitária’ e fica evidente que não haverá punição a vândalos. Ademais com nossa concessão perpetuação ao atos!

    E para piorar a tudo são esses nossos os agressores os futuros engenheiros,médicos,advogados,delegados de polícia, promotores, os juízes, …

    Por fim, massa universitária retrato fiel da nossa sociedade!

    Temos que repudiar sumariamente esse tipo de comportamento.

  8. Cintices says:

    [...] Vai, admite que você não achou engraçado? Principalmente quando lê que os amigos do “peão” berravam “pula, gorda-bandida“? [...]

  9. Pedro says:

    O mais grave é que um dos responsáveis por averiguar o caso diga que não quer “criar um clima de inquisição”. Punir as pessoas envolvidas em uma ação absurda dessas não tem nada a ver com inquisição mas com justiça!
    Em geral, casos inaceitáveis como esses acabam mesmo na impunidade, e esse tipo de pessoa consegue seu diploma tranquilamente (vejam o caso do estudante morto na faculdade de medicina da USP há alguns anos).
    O justo é que sejam expulsos da faculdade em que estudam, é óbvio.

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